terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Os fundamentalistas e o cursos de letras

Como professor tenho constatado coisas muito estranhas no universo da educação. Hoje vou falar de uma delas. Hoje em dia muitos protestantes fundamentalistas fazem curso universitário e nada perdem de suas superstições, continuam tão ignorantes quanto eram antes de seus cursos, com uma diferença: são idiotas diplomados.

Os protestantes fundamentalistas tem uma grande predileção pelo curso de letras, e isso tem uma razão de ser. Letras trabalha com literatura, literatura ==> livros = Bíblia. Não há nada melhor para se conhecer e defender melhor a Bíblia que o curso de letras. Um beletrista pode defender a Bíblia como literatura, até porque a Bíblia é um clássico quer queiramos quer não.

Conheço muitos professores de língua portuguesa e em sua maioria são protestantes fundamentalistas. Triste coisa, saber que o curso de letras está infectado por fanáticos, que desejam fazer da literatura um escudo para o livro preto. Não se vê tantos protestantes e fundamentalistas nos cursos de história, geografia, biologia, matemática, sociologia, filosofia, etc...

Se o curso de letras ainda tivesse a possibilidade de solapar não digo a fé, mas as superstições desses fanáticos, seria ótimo. Mas pelo que tenho visto e ouvido, os fundamentalistas ou nada aprenderam ou o curso de letras é inócuo. Prefiro acreditar que os fundamentalistas nada ou quase nada aprenderam.

Como eu gosto muito de literatura (por pouco não cursei letras) procuro sempre conversar com os professores de literatura. Mas que ingrata surpresa, nada sabem de literatura e se por acaso sabem algo é porque aprenderam no curso de letras. Esses fundamentalistas não leram a obra machadiana, não leram Lima Barreto, José de Alencar, Padre Vieira, Aloísio Azevedo entre outros. Nem vou falar na literatura universal senão vai dar merda o negócio vai feder.

Conversei com um professor de literatura, muito falador, bom de papo, que parecia ser culto e inteligente, até porque não havia tocado nem na Bíblia nem em religião. Um dia perco 90 minutos do meu sacratíssimo tempo ao entabular conversação com o supracitado cidadão. Conversa vai conversa vem falamos sobre literatura, sobre os grandes teóricos da pedagogia, da linguística, etc... Tudo ia bem, quando o "professor" falou que Piaget, Chomsky, Bakhitin e outros basearam suas teorias na Bíblia. Imaginem a minha reação. Fiquei branco, gago e de olhos esbugalhados como se tivesse vendo o diabo ou coisa parecida. O sujeito ainda teve a audácia de continuar seu discurso desavergonhado afirmando que o profeta Daniel tinha dado a ciência à Babilônia. Mui educadamente discordei do meu opositor e dei a conversa por encerrada, porque meus ouvidos não são privadas.

Ainda num outro dia o professor profeta, quis me convencer de que a Bíblia é um livro científico, o que me fez rir de sua ingenuidade. Ele pediu-me meia hora de meu tempo para provar sua tese. Acessou a internet na sala dos professores e mostrou um texto do profeta vetero-testamentário Daniel. Foi um texto sobre as 70 semanas e/ou 1260 dias. Aí o cidadão para me explicar o texto fez uma mistureba com história e bíblia e como não podia deixar de ser, falou besteiras. Disse que a tal profecia se concretizou com a fundação da Igreja Católica Apostólica Romana em 476. Pedi referências de historiadores, disse que referências não importavam, o que importava era a concretização da profecia. Só que a dita profecia não se realizou nem em 476 nem em quaisquer outras épocas. Mostrei para ele que no primeiro milênio só existia a Igreja Ortodoxa e que o papado como liderença suprema e inquestionável é uma instituição tardia. O professorzinho continuou a insistir em seu erro, e eu continuei a pedir referências e pedi para que não falseasse a história. Disse-lhe ainda que se ele quisesse me provar que a Bíblia era um livro científico, ele deveria usar um método científico para comprovar tais dados, e para isso a primeira coisa era mostrar-me uma bibliografia de historiadores insuspeitos para que eu pudesse conferir. Pedi-lhe que mostrasse um único historiador que afirmasse que a Igreja Católica Romana foi fundada em 476. Sabe que o professorzinho falou? Pesquise você na internet. Retruquei: O ônus da prova cabe ao afirmante, é você quem afirma que a Igreja do papa romano foi fundada em 476 e não eu. Enfim continuou a advogar a cientificidade da Bíblia sem método científico, ou seja, a emenda saiu pior do que o soneto. Para findar a conversa eu disse: Belo discurso mas sem provas, tudo o que você disse não passa de palavras.

Sabe de que religião é o "fessorzin?". Adventista do sétimo dia. A escola pública está uma merda! Professores fundamentalistas ensinando mitos bíblicos aos nossos alunos. Os fanáticos fizeram letras, mas continuam iletrados, isso é fato.

Proh Pudor!!!

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Carta a uma nação cristã





Ontem, passei minha tarde e parte da noite lendo o opúsculo de Sam Harris, Carta A Uma Nação Cristã.
O autor sabe argumentar bem, tem um estilo cativante que prende um leitor, (li em português, não sei se em inglês difere, ou afeta o texto, creio que não) é realmente uma conversa com o leitor.
Carta a Uma Nação Cristã é bem diferente de Deus Um Delírio de Richard Dawkins, onde se vê um Dawkins quase hidrófobo, que não sabe argumentar, ao menos não com a elegância de Sam Harris.

Sam Harris em seu livro ele não chama os crentes de idiotas ou de burros, mas faz ver que suas crenças podem ser perniciosas. Ele mesmo disse na obra não ter escrito para cristãos liberais e/ou moderados mas para aqueles que são fanáticos.

O autor demonstra que o Velho Testamento com seus ensinamentos horríveis não pode ser a "Palavra de Deus", e nesse ponto concordo com o autor. Quando ele fala acerca do Novo Testamento, quando Jesus pregou o inferno eterno, seria preciso que ele recorresse ao grego língua na qual foi escrito o Novo Testamento. O que vem a ser a eternidade para Jesus? O que é o inferno na mente de Jesus? Claro, Harris leu os evangelhos na visão do pentecostal, mas isso não quer dizer que o que ele lê em inglês corresponda necessariamente ao grego. Até porque no original grego quando Jesus fala de castigo eterno ele usa kolasin aionion que significa castigo corretivo por tempo indeterminado, ou por eras de eras, visto que a palavra aion (era) está no plural e a palavra eterno mesmo, eterno que significa sem fim não tem plural em grego. Se Jesus quisesse mesmo falar em inferno eterno como querem a maioria dos estúpidos cristãos, ele usaria o termo aidios timoria que significa catigo eterno com vigança. Penso que Sam Harris deveria usar este argumento contra os cristãos fundamentalistas. Conclusão Jesus não foi esse cara mau demonstrado pelos cristãos toscos e pelo autor da Carta A Uma Nação Cristã.

Sam Harris demonstrou que a "moral cristã" nem é moral nem cristã, porque a moral deveria estar associada a empatia, ao amor pelos semelhantes. Uma moral que não se importa com a dor alheia não é uma moral, mas apenas uma convenção criada para favorecer aos caprichos de líderes religiosos.

Soube desenvolver bem o tema do aborto e das células troncos, no primeiro caso quando disse que 50% das mulheres sofrem abortos espontâneos e no segundo quando afirmou que para engenharia genética qualquer célula humana é potencialmente um ser humano. E que os cristãos só não permitem pesquisas com células troncos, graças a sua ignorância em biologia e são ignorantes por causa de suas crenças, nesse caso irracionais. Pensam que moral é agir de acordo com regras da Bíblia ou com opiniões não fundamentadas de seus líderes.

Em seu discurso Sam Harris fez um brilhante ataque ao Desing Inteligente (D.I), que é uma espécie de criacionismo mais sofisticado e tão falso quanto o criacioniosmo clássico.

Concluindo, gostei muito da leitura desse livro, isso não quer dizer que eu concorde 100% com o seu autor. Mas é bom por que ele sabe provocar sem insultar, e sabe demonstrar as falácias dos fanáticos com uma linguagem acessível a todos. Vale a pena ler a Carta A Uma Nação Cristã.

domingo, 13 de dezembro de 2009

Entrevista com São Basílio Magno - parte II




Para quem quiser ler a primeira parte da entrevista, clique aqui.

DC: O que Vossa Beatitude pensa de acerca de classes e castas? O sr. sabia que aqui no Brasil ainda existe trabalho escravo, o que pensa da escravidão?
São Basílio: "Nem servo - dizem - nem senhor, mas livre. Maravilhosa estupidez e miserável audácia daqueles que falam assim! Que haverei de deplorar mais a sua ignorância ou a sua blasfêmia? Pessoas que desonram a doutrina acerca de Deus com ensinamentos de homens e se empenham em transferir para a natureza divina e inefável um costume terreno, que reconhece diferença de dignidades e não leva em conta que, entre os homens, não há ninguém escravo por natureza. Foi assim que os homens tiveram que se submeter ao jugo da servidão por opressão tirânica: por exemplo, os prisioneiros de guerra ou aqueles que foram reduzidos à escravidão pela fome...".
DC: Thomas Hobbes disse que "o homem é o lobo do homem". O que pensa a respeito disso?
São Basílio: Eu diria que os homens se parecem com peixes e eu explico o porquê¹.
"Os peixes tem diferentes hábitos alimentares, segundo sua espécie. Uns, com efeito, se alimentam de barro, outros de alga, enquanto outros se contentam com as plantas que nascem nas águas. Quanto à maioria, uns comem os outros e o menor serve de comida para o maior. Se acontecer que o que se apoderou do menor for, por sua vez, presa de outro maior, os dois irão parar no mesmo ventre.
Que outra coisa fazemos nós, homens, ao oprimir os de classe baixa? Em que se diferencia do exemplo que demos aquele que, por seu ávido amor à riqueza, esconde os fracos em seu ventre insaciável? Aquele homem possuía o que era dos pobres. Você, tomando para si o próprio pobre, faz dele parte de sua opulência.
Você tem se mostrado o mais iníquo dos iníquos e o mais avarento dos avarentos. Tome cuidado para que não tome o mesmo fim dos peixes: o anzol, a vara ou a rede. Estejamos certos de que se cometermos muitas iniquidades, não escaparemos do suplício final".
Nota:
¹Essa frase inicial não é de São Basílio, mas minha, eu a pus na boca do entrevistado para que o texto possa se encaixar perfeitamente à minha pergunta. A frase inicial foi feita apenas para dar coerência ao texto que se segue e a mesma não afeta em nada o texto do santo.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Francisco Sanches, o Descartes português



René Descartes, filósofo francês ficou conhecido por uma frase sua muito repetida e pouco entendida: "Cogito ergo sum" - "Penso, logo existo". Sentença essa que faz parte da dúvida metódica, que simplesmente mostra que se para fazer ciência é preciso não se aferrar a opiniões estabelecidas. Mas que deve se duvidar de tudo, e se duvidando de tudo pode-se fazer ciência. Exemplo claro temos no: "Penso, logo existo", uma vez que duvido de minha existência, é preciso que alguém exista, para duvidar, esse alguém sou eu. Se eu não existisse eu não poderia duvidar de minha existência, se duvido é sinal evidente de que existo.




Mas não é de Descartes que vou falar, mas de um português que o precedeu e chegou as mesmas conclusões que chegaria Descartes mais tarde. Francisco Sanches foi médico e filósofo (1550-1623).


Sanches revoltou-se com o ensino de sua época, que era um ensino imposto, inquestionável, como se o ensino fosse imutável, universal e absolutamente necessário. Era um ensino baseado na escolástica nominalista, os mestres diziam a seus alunos que podiam provar tudo através de silogismos. A questão desses mestres, era que gostavam de fraseologias vazias, que gostavam de "metafisicar", de dar significado diferente as palavras. Daí Sanches escrever o seu livro Que Nada Se Sabe, livro no qual desmontou as falácias do palavreado vazio. Demonstrou que ninguém conhece mesmo as definições com a qual nomeia um objeto. E numa parte citando Aristóteles que era a autoridade da época, demonstra que uma definição dele era diferente de uma definição dada por Cícero, aliás, Sanches defende que Cícero nesse quesito sabia mais que Aristóteles, uma vez que era orador e por isso era obrigado a lidar com as palavras e suas definições.

Para quem se interessar mais pela obra do erudito português recomendo os e-books que podem ser lidos rapidamente: Francisco Sanches e o problema da certeza e Que Nada se Sabe. Creio que vale a pena a leitura desses e-books, afinal cultura nunca é demais.

Quantos filósofos há desconhecidos de nós, filósofos que se perderam entre a multidão de outros pensadores, que muitas vezes nem eram brilhantes. E esses que são anônimos tiveram pensamentos elevados e precisam sair do anonimato para o bem daqueles que amam o saber.







quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Batata-quente - 1ª Campanha do Sindicato


Vou pagar o honroso convite de meu amigo Fernando (Felix) para este blog passando a batata-quente do sindicato. E como este é mais um blog escrito que qualquer outra coisa, irei fazer um breve texto, ou se preferirem o neologismo ruim e cacofônico, um textículo.


A batata


A batata tem história, como tubérculo é originária dos Andes peruanos e bolivianos. 


Como agente da história humana foi reserva dos Irlandeses contra o massacre inglês. Enquanto as tropas inglesas incendiavam trigais e matavam porcos, a  batata resistia abaixo do solo alimentando os revolucionários. 


Os nutricionistas dizem que em um caso de urgência qualquer a batata e um pouco de leite poderia suprir todas as necessidades de nosso organismo. 


Na arte, dizem que Van Gogh cortou a orelha por causa de uma batata mal feita por sua cozinheira.... Ok, não vou exagerar! Na verdade, ele retratou o cultivo da batata numa de suas obras mais famosas, na qual dois camponeses colhem a batata na plantação.


Na língua portuguesa, a batata tem como seu profeta e messias Nelson Rodrigues que imortalizou a expressão. Para este dizer "é batata" pode significar que algo é lógico, sem dúvida alguma, certo de acontecer, então dava fumos a batata de que uma traição de longa data era certa, que um palpite no jogo de bicho é acertado, ou mesmo a parte de arremate dramático de um aforismo dito em um botequim dos mais ralé.


"A batata está assando" significa jura de que o mal será feito, que as coisas não terminaram bem, é só questão de tempo.


"Vai plantar batata" é uma interjeição para que o outro abandone o que faz e se afaste se não quiser ver sua batata assar.


"Passar a batata-quente" é livrar-se um problema, de uma dificuldade, ou situação embaraçosa, um desafio.


Como podemos ver é ilustre a figura que está passando entre os associados...
Assim termino minhas linhas. 
Espero que a contento.



segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Quando Cronos devora seus filhos




Ultimamente estou com falta de tempo e por isso não tenho postado nada nesses últimos dias. Fechar notas, corrigir trabalhos, lecionar, higienizar meus livros, participar de congressos, eleições sindicais, não é fácil, sinto que o meu tempo encurtou.

Não foi à toa que Cronos foi associado ao tempo, uma vez tal e qual um novo Cronos, o tempo devora insensivelmente os seus filhos. E nós somos mais infelizes do que os filhos do primeiro Cronos, porque não temos um Zeus para que esse último cronos, nos devolva o tempo perdido, a saúde perdida enfim a vida dos que já morreram.

Assim é que nosso pai o tempo (Cronos) devora nossa infância, nossa adolescência, nossa maturidade e nossa saúde. Ele não nos devora de uma vez só, mas de forma homeopática, isto é, aos poucos.

Do nome desse deus surgiram os nomes cronologia e o cronômetro, o primeiro se refere ao estudo das datas e a ordem dos acontecimentos; o último se refere ao relógio que marca os segundos, centésimos e milésimos. O cronômetro mostra-nos como o tempo é implacável e como nos "rouba" o tempo todo.

Como os amigos já sabem Cronos é o nome grego para Saturno (deus romano). E por falar em Saturno, até o dia nesse planeta é curto, dura apenas 10 horas, 39 minutos e 24 segundos terrestres. Certamente que se vivêssemos em Saturno o dia seria ainda mais corrido e a falta de tempo seria ainda maior. Por outro lado quem é que não gostaria de viver 70 anos de Saturno aqui na Terra? Um ano em Saturno tem a duração de 29,46 anos terrestres.

Gostaria de falar mais sobre o tempo, mas falta-me tempo. Ainda hei de falar mais sobre o tempo, mas para falar do tempo é preciso ter tempo. Até a próxima.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Criador e Criatura - Um Princípio


É necessária uma explicação para o texto que se segue, ou parecerá ao leitor desavisado sem sentido ou contexto. O texto abaixo é trecho do Livro Alfa - Um Princípio (título provisório) escrito no ano de 1998 por este amador que lhes escreve. O livro não foi publicado, mas se um dia concluir uma revisão adequada talvez possa lhe dar vida ao publicá-lo. A sinopse do livro, sendo excessivamente sucinto, trata da história de um príncipe de um povo lendário, Chamado Alfa, e que se vê  arrancadado de seu lar por um povo hostil. O que se segue é a batalha deste por toda a Grécia para reaver seu trono. A história se complica quando este descobre que os acontecimentos em seu reino estão relacionados com uma guerra nos céus que alterou a ordem do mundo. E o que era uma batalha comum por vingança se torna uma busca heróica pela ordem do mundo.


Resolvi publicar aqui este trecho por seu teor filosófico. Nesta parte o príncipe Alfa esta peregrinando em busca de respostas e encontra vários gurus exilados do mundo, cada qual com sua verdade de hermitão. Abaixo segue o diálogo do príncipe com um e tirano que perdeu a fé na civilização.



Peregrinou durante todo um dia em completa solidão, até encontrar no caminho um velho senhor que o carisma já o convidara a sentar e partilhar a presença antes mesmo de expressa-lo.  Alfa encontrando neste homem conhecimento incomum, quis ouvi-lo e sentiu-se sorteado por tantos homens diferentes em pequena viagem.  O velho falou-lhe nestes modos:
—Detenha-se por hora, recoste-se em pedra ou arbusto e ouve a minha história que poderá servir-te quando de sua velhice ao menos, assim como serviria a todos os homens sábios. Vê toda esta terra por onde se estende hoje a polis e seus arredores até onde podemos enxergar? 
—É uma região maravilhosa, de relevo privilegiado e fértil. Respondeu Alfa.
—Estas terras e muitas outras – continuou o ancião com ar solene – pertencem aos meus antepassados, que aqui chegaram trazendo civilização quando os homens promoviam guerras de sangue por motivos quaisquer e suas moradas estendiam-se dispersas por estas planícies sem sentimento de Estado, sem motivo para que crescesse entre eles a diretriz de uma civilização. Meus antepassados cederam terras a estes homens em nome da civilização, da hospitalidade. Da polis atual quase dois terços eu herdei e não houve luxo que não tenha eu desfrutado. 
—As nossas vidas assemelham-se neste ponto. Fecundidade e escassez.
—Os homens que chegavam nestas terras fixavam-se onde considerassem melhor para viver. As ásperas montanhas de pedras calcárias ocupando quase todo o território, restringiram  naturalmente a ocupação dos territórios, aproximando os homens. Os genos eram minúsculas comunidades naturais, onde se reuniam um número pequeno de famílias. Com o tempo, as famílias obrigatoriamente foram criando laços, resultando em antepassados comuns para prestarem culto a um só sangue. Logo os genos tornavam-se comunidades de sangue comum. As pequenas aldeias cresceram e conquistaram inimigos para os quais tiveram necessidade de criar um sistema de defesa.

—São as Acrópoles.
—Justamente. Nos locais mais elevados construíam a Acrópole e ao redor muralhas para dificultar as investidas inimigas. As atividades agrícolas foram substituídas por outras atividades econômicas, que atraíram elementos estrangeiros, unindo os homens ainda mais. As várias atividades propiciaram o surgimento de classes distintas. As lutas políticas sucediam-se. A solução foi criar leis para regulamentar as atividades sociais e econômicas. Os meus antepassados formaram a aristocracia regente; na crise desta, surgiu a tirania. O tirano, senhores das cidades, protetores da justiça e religião, arrastou consigo as artes diversas para uma explosão intelectual. O sangue dos meus antepassados tem raiz desde o princípio desta civilização. 
—Mas por que vieste para a montanha —coloca em questão Alfa —afim de isolar-se, se o destino reservou-te vida afável e segura? 
—Eu lhe asseguro estrangeiro a existência escura de um pacto. Há um pacto obscuro entre a alma e a sociedade. “Quanta dor há em você! Quanto sofrimento corrompe a sua alma! O seu corpo poderá suportar este vazio que há dentro de você ou não faltará muito para que desabe como um saco de carne, repleto de tripas, sem a sustentação dos ossos?” Disse-me a angústia...
—Continue, começo a entender! 
 —A angústia conduziu-me ao encontro do ser.  Dissolvido no cotidiano, de repente, senti-me estranho a minha condição. Eu não tinha vivido, mas existido até aquele momento. Eu percebi que o homem pode transcender, atribuindo um sentido ao ser, vestindo-lhe de bem e mal. “O seu corpo não consegue sacudir os alicerces? Quanta dor, quanto sofrimento!” O cotidiano, aliena o homem de sua inclinação original: a ontologia. As preocupações cotidianas, o sacrifício pelo opressivo “eles” desviaram-me de minha própria vida. Os homens vivem na sociedade atual sugando uns aos outros prostituindo a si mesmo. Acordei e percebi que os objetos que possuía afastavam-me cada vês mais de mim. Os objetos que eu adquiria me possuíam. “Eu sou capaz de aliviar sua dor. Eliminar o seu sofrimento. Eu ofereço um pacto. No início haverá um desconforto, muito do que você é hoje, deixará de existir. Haverá um momento que a sensação de liberdade dará lugar a uma sensação de mecanicidade.  Em pouco tempo a segurança nascerá. Este é o meu preço, posso aliviar a sua dor em troca de sua liberdade ou viva livre com sua angústia. Vague livre por todas as partes ou aceite minha oferta na comunidade, diz a sociedade”. Os homens ofertam a sua liberdade, em troca de segurança contra o meio, mas em especial de si, de sua fúria de movimento.  A existencialidade expressa nos atos de apropriação das coisas do mundo, o prazer de possuir.  Só a angústia desperta o ser humano e percebe que existe na frente de si mesmo, que se constrói no ato. A sua existência precede a essência.  O ser humano é único capaz de agarrar sua vida  e tornar-se o que desejar. O pacto do qual a minha alma foi adágio não o selei, mas os meus pais o fizeram. Não assinei de próprio punho este contrato, por isso, sem remorso liberto-me. A igualdade, o pecado e a vida no além segundo a dieta de conduta reta, tudo isto vi externo ao homem. O verdadeiro projeto do homem é de se construir. O homem é uma obra de arte.
—O que quer dizer com o homem é obra de arte, mais claramente.
—Pensemos na arte. Na criação artística, quando de sua realização existem dois momentos distintos, também possíveis de chama-los fases: a criação e a obra. A primeira quando de sua composição caracteriza-se por uma íntima ligação com o criador que se expressa através desta mesma, carregando-a de signos e experiências íntimas. Nesta fase podemos observar a necessidade do criador realizada somente ali quando do ato da composição. Terminada a obra de arte desvincula-se da paridade criador-criatura assumindo corpo próprio. 
—A criatura terá sempre as marcas de seu criador.
—Não. O criador permanece apenas como um nome. Inserida no tempo histórico a obra passa a desdobrar-se assumindo valores, sendo interpretada de forma às vezes até adversas da intencionalidade criadora. A meu ver o artista é o homem, que tem seu projeto na criação, expressa sem a obrigação e o laço de absolutizar sua obra. E a obra de arte é o produto deste homem liberto, a sua vida.  O projeto do homem é criar além do bem e do mal, e só os homens fortes criam com pleno prazer. 
—Sinto uma certa dificuldade no que tange a obra de arte e a criação.
—Um exemplo. Tomemos este desenho — traceja com o indicador um círculo no chão e marca-lhe o centro, o melhor que pode. — Interprete a representação.
—Bem, o ponto como interpreto, representa o homem e o círculo, o mundo que o cerca. O conjunto seria portanto, o homem fechado em si, só, como indivíduo, mas passível de compreender o universo que o cerca por si.
—Eu pensei simplesmente em uma roda de carroça. Escute atentamente. O momento que realizava o tracejado no chão, evidentemente propus-me a representar algo, este é o momento que chamei de criação. Construção e introdução de signos. Ao terminar o desenho, entendendo que o comparo aqui ao produto final de toda criação, este passa a ser interpretado de forma diversa, conforme o tempo e o entendimento, bem como experiência do observador. O homem está em relação dual com o papel de artista e interprete. Interprete, perante um mundo no qual existe aquém de sua vontade, e na qual fora inserido tendo como forma única de existir somente pela constante escolha...

—E se eu não escolher?
—...que não se furta mesmo na omissão, visto que escolhe não escolher. O ponto de construção é sua livre escolha, não há sinais no céu ou no manto dos deuses. É criador na medida que a sua atividade material e mesmo intelectual, sempre que revelada ao outro, será fruto de interpretação, muitas vezes contrária a sua intenção primeira.


Fim do trecho


Espero que os leitores não tenham ficado com a cara do coringa... 


Acrópole - De acron = cimo, e polis = cidade. As aldeias gregas, por volta de 800 a.c. cresciam, conquistando inimigos. No local mais elevado, os homens criaram seu sistema de defesa, estas eram as acrópoles. 


Polis - Assim eram chamadas as cidades-estados gregas. 


Genos - Comunidades naturais, de proporções minúsculas,anterior a polis propriamente dita. A sua população era constituída de todos aqueles pertencentes a um mesmo sangue ou as vezes raça, etnia. O tempo, faria a comunidade crescer e reunir-se cada vez com mais intensidade nestes núcleos comunitários, em busca de proteção. No início, o ponto mais alto era fortificado para que em caso de guerras, os cidadãos pudessem buscar ali proteção. Esta é a origem da Acrópole, cidade alta. Na medida que a população crescia os muros tomavam maior extensão de terra e leis tiveram que ser elaboradas para regular as relações das classes emergentes.